
COMO SOFRER!
É diante desta pergunta
que procuramos buscar um novo caminho. Se não temos como mudar a vida, então
precisamos descobrir um jeito de sermos transformados por ela.
Se eu não posso mudar o
fato de ter que sofrer, então posso encontrar um modo de como sofrer. É mais
uma vez uma proposta de mudança de foco.
Muitos sofrimentos que nos
atingem são otimizados por nossa maneira de lidar com eles. A matéria que nos
faz sofrer nem sempre é tão grave. O problema é a forma de lidarmos com ela. O
revestimento que damos aos nossos problemas torna-se maior do que o próprio
problema.
Muito facilmente fazemos
tempestade em copos de água, porque nos falta sabedoria na lida com os
acontecimentos que estimulam os nossos limites. Mesmo que seja natural, o
sofrimento ainda é enfrentado como se fosse um inimigo.
É claro que não queremos
sofrer. A resposta humana diante dos desafios da vida é sempre de proteção. O
ser humano vive para proteger-se dos limites que tem, mas não podemos fugir
desta verdade – eles são parte integrante de nossa condição e não podemos mudar
isso.
Mas, diante de tudo o que
não podemos mudar, há sempre o que podemos aprender e compreender. Talvez seja
este o movimento possível diante da dor. Encontrar nela alguma resposta, ainda
que silenciosa, que nos sugira e proporcione um aprendizado.
A sabedoria nos ensina que
diante de uma vida que sofre, as perguntas podem parecer inoportunas. Uma
atitude vale muito mais. Apressamo-nos muito em fazer perguntas no momento da
dor. Por que isso nos aconteceu? Por que estamos passando por isso? Por que
pessoas boas sofrem tanto?
O grande risco é que nossa
multiplicidade de perguntas não permita o nascimento de sabedorias, afinal, a
sabedoria costuma acontecer somente a partir da experiência da contemplação.
Temos aprendido, a duras
penas, que o bom da vida não está em chegar às respostas, mas sim em aprender a
conviver com as perguntas. Nem sempre nos tornamos aliados desta forma de
sabedoria.
Insistimos muito em querer
respostas, e com isso perdemos a mística das boas perguntas. Há perguntas que
podem nos alimentar de maneira positiva durante uma vida inteira.
Nem sempre as respostas
possuem este poder, pois caem no esquecimento com muita facilidade. As
perguntas não. Elas duram o tempo da busca. E há buscas que não cabem no tempo.
Elas possuem o dom de nos alimentar durante toda a nossa história.
São perguntas que nos
seguram na dinâmica da vida. Não são perguntas que se alimentam de respostas,
mas perguntas que se alimentam de esperanças. Elas se transformam em motivos,
que podem ser sempre novos, porque um motivo vai alimentando outro.
Os sábios sabem disso. Às
vezes encontramos histórias de homens e mulheres refugiados em seus
eremitérios, lugares reservados à solidão, distantes das exigências da vida
contemporânea. Pessoas que abandonaram o mundo e sua fabricação de respostas
rápidas, transitórias, para se refugiarem com suas perguntas silenciosas.
Eles não querem respostas
rápidas, produzidas em série. Eles querem as perguntas que se transformam em
motivos. Eles querem as perguntas artesanais, aquelas que são construídas aos
poucos, na calma que nutre a sabedoria.
Eles não temem o que ainda
não sabem, mas descobrem neste lugar da vida a beleza da contemplação. O não
saber não é uma prisão, ao contrário, é uma fonte de liberdade.
A diferença está na forma
como olham para o que ainda não sabem. Ao invés de se alimentarem de desejos de
responder, eles mergulham na pergunta que merece calma e nelas permanecem. Eles
descobrem a mística do questionamento e com isso se livram do sofrimento
infértil que nasce da ansiedade de chegar à resposta. Descobrem no processo do
não saber um jeito bonito de permanecerem.
Muitos sofrimentos nascem
de nossa incapacidade de permanecermos na pergunta. O grande problema é quando
a insistência da pergunta nos incapacita para descobrir a resposta. È neste
momento que corremos o risco de mergulhar numa modalidade de sofrimento que é
absolutamente infértil.
FONTE: LIVRO QUANDO O
SOFRIMENTO
BATER À SUA PORTA
FÁBIO DE MELO
EDITORA CANÇÃO NOVA