
AFINANDO O SEXTO SENTIDO
O ritmo acelerado do
dia-a-dia tem afastado as pessoas da intuição. Hoje, quase ninguém presta
atenção nos recados que ela manda. Mas dar ouvidos às mensagens pode ser um
trunfo
Para viver melhor.
Um cochilo e um sonho:
átomos dançando no espaço formam uma estranha cadeia molecular. Foi assim que o
químico alemão Friedrich Kekulé descobriu, em 1865, a fórmula do benzeno – o
solvente usado como matéria-prima na fabricação de inseticidas, plásticos, náilon e outros tecidos sintéticos. Kekulé
acordou, pulou da cama e passou o resto da noite trabalhando. No dia seguinte,
anunciou a descoberta e creditou a algo nada científico: à intuição. Ele não
foi o único. Na Grécia antiga, o matemático Pitágoras afirmou o mesmo ao criar
o teorema que leva o seu nome. Thomas Edison, inventor da lâmpada, e Jonas
Salk, criador da vacina contra a poliomielite, também atribuíram suas proezas
ao sexto sentido.
Intuição, todo mundo tem.
Mas é preciso tempo, disposição e paciência para notá-la. Três ingredientes que
estão em falta na vida moderna.
Cada vez mais, razão vem
tomando o espaço da emoção. A intuição, que faz parte do universo das
sensações, é deixada de lado. “ Ela pode até surgir em meio a uma rotina agitada, mas vai ser difícil
percebê-la”, afirma a psicólogo e psicoterapeuta
argentino Edgardo Musso, diretor do Centro de Desenvolvimento da Intuição e
Criatividade, do Rio de Janeiro.
“ Não dá para escutar a mensagem interior se a pessoa não
estiver tranquila e livre de ansiedade”, conclui.
Os homens são os primeiros
a não dar ouvidos a ela. Usam com mais frequência o hemisfério esquerdo do cérebro, responsável
pelo lado racional, e aprendem desde cedo que devem confiar mais no que vem e
no que sabem e menos no que sentem.
Resultado: em geral são
céticos no que diz respeito ao assunto – o primeiro passo para inibir esse tipo
de sensação. “ Sou muito prático. Não acredito em intuição de jeito nenhum”, diz
Marcos Antonio de Mello, 37 anos, comissário de bordo. “ acho que, no máximo, há
coincidências.”
Poder feminino
Mesmo as mulheres, mais
intuitivas, estão abandonando esse dom.
Desde a infância, elas são
estimuladas a usar com maior intensidade o lado direito do cérebro, onde são
Trabalhadas as emoções.
Quando se tornam mães, ficam ainda mais ligadas ao que ocorre ao seu redor,
atentas a qualquer sinal que possa colocar a prole em risco. “ No entanto, como competem em um
mundo ainda dominado por homens – ou seja, pela razão -, acabam bloqueando suas
características intuitivas”, afirma Sonia Szeligowski, terapeuta holística
brasileira que mora na Itália, onde estuda o assunto há quinze anos.
Provavelmente foi o que
aconteceu com a jornalista Karina Hollo, 27 anos, de São Paulo. Há um ano, ela
acordou com a estranha sensação de que
deveria trocar a fechadura da porta de entrada de seu apartamento. Saiu
apressada de casa e ignorou o aaviso. Naquele dia, ao voltar do trabalho,
contabilizou o prejuízo: TV, roupas, perfumes e diversos objetos pessoais
haviam sido roubados. Por um ladrão que abriu a porta da frente. Mas há quem
tenha se salvado de acidentes , encontrado um amor para a vida inteira ou até
descoberto um objeto que procurava acreditando na intuição.
Aviso divino
A palavra intuição vem do
latim in tueri, que significa “ olhar para dentro”.A ciência a define como a capacidade que
todo ser humano tem de ver, perceber, discernir ou pressentir alguma coisa sem
o uso do pensamento racional. Cada religião a enxerga sob a ótica de suas
crenças: espíritas Kardecistas costumam atribuí-la às experiências de vidas
passadas; católicos, que não acreditam em reencarnação, entendem como um aviso
divino; budistas tibetanos afirmam que se trata de uma mensagem enviada por
gurus, líderes espirituais que passam a maior parte de tempo retirados em
oração.
Segundo a ciência, o
processo intuitivo ocorre em frações de segundo o hemisfério direito do cérebro
recebe um sinal, que pode ser um odor, uma visão, um sonho ou apenas uma
sensação, e produz uma interpretação ( ver “ O caminho da intuição no cérebro”).
As mensagens da intuição
chegam o tempo todo ao cérebro, mas a maioria das pessoas passa a vida sem se
dar conta disso. Muitas aparecem em forma de sonho, como no caso do descobridor
do benzeno. Outras vêm em impressões de déjà vu, a sensação de que a cena que se vive naquele instante
Já aconteceu no passado.
Há ainda quem voz que as alerta ou sentir uma dor em determinada parte do corpo
como um prenúncio de acontecimentos.
A neuropsiquiatra
americana Mona Lisa Schulz, autora do livro Despertando a Intuição, conta que
há alguns anos a palavra alfaglicosidase veio misteriosamente à sua cabeça.
Como desconhecia a palavra, resolveu procurar o significado em livros técnicos.
Era a substância que
faltava para solucionar uma experiência química que ela tentava concluir. “ Só pode ter sido obra da minha
intuição.”
Segundo especialistas,
qualquer um pode aprimorar o sexto sentido. O psicoterapeuta argentino Edgardo
Musso acredita que é possível fazê-lo tentando entrar em contato com as emoções
mais profundas. “ A psicoterapia ajuda, mas basta que as pessoas incluam na rotina um
espaço para ficar com elas mesmas em meditação.”
Seguir sem medo aquela
sensação de “ alguma coisa me diz que devo fazer isso” é outra técnica, talvez
até a mais importante. Ou seja: acreditar na intuição é o primeiro passo para
desenvolvê-la.
Angela Senra
Para melhorar a sintonia
Exercícios para
aperfeiçoar a intuição
Sentada ou deitada,
respire profundamente. Ligue um gravador o relate durante 2 minutos o que está
sentindo. Se ouvir um carro buzinando, diga o que escutou. Se tiver fome, fale sobre isso. O truque é expressar
todos os pensamentos, sentimentos ou recordações que vieram à tona. Fale tudo.
Livre-se da censura interna e resista à tentação de ignorar sensações que “ não fazem sentido”. A interferência que a
incomoda pode ser um dado valioso. Caso se sinta bloqueada, respire
profundamente e focalize qualquer um dos seus sentidos ou pensamentos. Repita o
exercício todo dia. Com o tempo, isso irá
ajudá-la a diferenciar a intuição de outras sensações que experimenta.
Todas as manhãs, ao se
levantar, reserve um tempo para relembrar seus sonhos. Use um gravador ou
escreva em um caderno separado só para esse fim. Fazendo isso durante algumas
semanas, você vai perceber que estará entrando em contato com suas emoções, ou
seja, despertando seu poder intuitivo.
Este exercício deve ser
feito em uma praia ou no campo. De pé em frente ao mar, respire lentamente e
concentre-se na imensidão. Preste atenção no barulho das ondas, no movimento e
na temperatura da água, no cheiro e no que está sentindo no momento. Permaneça
por alguns minutos até ficar bem relaxada. Se estiver em meio a árvore,
concentre-se no barulho do vento, das folhas, na temperatura do ambiente, no
som e no movimento dos animais. Isso ajuda a abrir os canais para a intuição se
expressar.
FONTE: Laura Day, autora de Manual de Intuição Prática;
Edgardo Musso, psicoterapeuta.
O caminho da intuição no
cérebro
Como os neurologistas
explicam esse conjunto de sensações
O cérebro está dividido em
dois hemisférios: o direito e o esquerdo, que se comunicam por um feixe de
fibras nervosas chamado corpo caloso. O direito
está ligado às emoções e é onde ocorre a intuição.
O esquerdo está vinculado ao intelecto. Assim
que o lado direito capta uma mensagem intuição, O esquerdo se encarrega de
decodificá-la, ou seja, racionalizá-la.
Nesse momento, o cérebro
libera endofinas e neuropeptídeos- substâncias que influenciam a atividade
neural. Elas se espalham por todas as áreas periféricas do corpo: nervos, vasos
sanguíneos, coração, pulmões e outros órgãos.
Em seguida, uma reação
química percebida por meio de um dos sentidos. A pessoa tem a impressão de ver
uma cena ou de ouvir uma voz. Ou apenas tem a sensação de que algo vai
acontecer. É a intuição.
FONTE: REVISTA CLAUDIA
EDITORA: ABRIL