
A VIAGEM DOS DOIS BURROS
Numa fazendo moravam dois burros. Um deles se julgava sempre
mais inteligente do que o outro. É comum um burro achar que é melhor do que o
outro. Então, sempre que precisavam fazer algum trabalho, o burro inteligente
dava um jeito de ficar com o serviço mais fácil. Além disso, ele era preguiçoso
demais para aprender as coisas. Não gostava de fazer sacrifícios
desnecessários. Segundo sua filosofia de vida, viver é só imitar os outros.
Viver é escolher sempre o caminho mais curto e o trabalho mais leve. Então,
quando precisaram fazer uma longa viagem levando encomendas para um fazendeiro,
o burro inteligente escolheu a carga de esponja. Era uma carga maior e ele se
dispôs a fazer o sacrifício, enquanto seu colega levaria uma carga um pouco
menor: dois grandes balaios de açúcar. Dizia o burro que carregava açúcar:
- Caminhemos com
cuidado, porque a estrada é perigosa.
O outro disse:
- Onde está o perigo?
Basta andarmos pelo rastro dos que hoje passaram por aqui.
- Nem sempre é assim.
Onde passa um pode não passar outro.
- Que burrice! Eu sei
viver, e minha ciência me ensina: basta você imitar quem já passou à sua
frente. Olhe sempre o modelo dos outros. O que os mais sábios fizerem você
também deverá fazer. É simples.
Eis que os dois burros se deparam com um rio com bastante correnteza.
O burro com carga de açúcar, temeroso e precavido que era, não quis arriscar:
- E se o rio nos
arrastar? O que vamos fazer?
- Ora – respondeu o outro -, se outros viajantes conseguem chegar ao outro lado, também chegaremos.
Isso é lógico. Atravesse você primeiro, que sua carga é mais pesada que a
minha. Eu irei logo atrás de você.
( O que o burro sabido queria era que o outro testasse o caminho
antes...)
E assim aconteceu. Só que ao entrar no rio o açúcar começou a
derreter. O burro ficou bem mais leve. Aliviado da carga, atravessou com
rapidez o rio. O burro sabido gritou, com alegria.
- Não disse que seria
fácil? Agora, seguindo minha teoria e imitando você, lá vou eu!
Mas qual não foi sua surpresa ao entrar no rio e sentir a carga
de esponjas inchar com a água, tornando-a insuportavelmente pesada, fazendo-o
sucumbir à correnteza e morrer afogado.
Perdoar não é fácil, mas é o único jeito de atravessar o rio da
vida. A mágoa é uma esponja que a gente carrega. Eu tenho direito de me magoar.
A pessoa me ofendeu. É mais fácil carregar esponjas. Só que, quando formos
atravessar o rio da vida, corremos o mesmo risco do burro inteligente.
FONTE: LIVRO A CURA DO RESSENTIMENTO
PE. LÉO, SCJ
EDIÇÕES LOYOLA