
PARADOXO DA FELICIDADE DE CONSUMO
“ O conceito de felicidade
é tão indeterminado que, embora todo mundo queira alcançar a felicidade, nunca
se consegue dizer de forma definitiva e coerente o que é que realmente deseja e
quer”. ( Kant, 1724-1804)
As conversas da vida comum giram, frequentemente, em torno
dos desejos e planos de felicidade. Mas, o que, realmente, significa ser feliz?
De repente, a modernidade começou a usar essa palavra de maneira tão constante
que o seu uso chega a ser leviano.
Um supermercado diz que é “ lugar de gente feliz”, uma loja de roupas diz que “
felicidade é encontrar o seu manequim em uma roupa fashion”, os traficantes de drogas dizem que o
ecstasy é a “ pílula da felicidade” e assim por diante. Afinal, o que
ligaria a felicidade ao consumo de produtos, serviços ou drogas?
Começo afirmando que isso tem a ver com o fato de que a
felicidade é uma composição da vida social e que ela ganha forma nas imposições
culturais e econômicas de um tempo. Em outras palavras, quem determina o que
nos torna felizes é a cultura em que estamos inseridos; é, como diria Jean-
Paul Sartre ( 1905-1980), a vida na presença do outro, não
necessariamente com o outro, mas sempre frente ao outro. Ter mais, consumir
mais, ser mais bonito, estar na moda, morar melhor, frequentar os melhores
restaurantes, usar as marcas mais caras, ou seja, o sentimento de felicidade na
atual sociedade está sempre ligado à forma como se aparece diante do outro.
Pode parecer loucura, mas é assim que esse mundo consumista
nos impulsiona a viver. Estamos sempre comparando a nossa felicidade com a
felicidade do vizinho e para isso utilizamos medidas de consumo. As pessoas da
sociedade que Gilles Lipovetsky ( 1944) chama de sociedade de hiperconsumo se sentem melhor quando
percebem que estão sendo invejadas. Desta maneira, não basta consumir, tem que
se mostrar nas redes sociais, nas festas, nas ocasiões de ajuntamento público,
nas rodas de amigos, na igreja, etc.
Isso tudo é estranho, pois não faz muito tempo que as
pessoas tinham medo de serem invejadas, agora elas têm orgulho disso. O
paradoxo da felicidade de consumo está justamente no vazio que se segue a esse
orgulho, uma espécie de ressaca que nasce da insaciável ambição humana, da
incapacidade de se contentar com o que se é, ou mesmo, com que se tem. Pior que
isso, o paradoxo da felicidade de consumo é a desorganização da vida pessoal e
familiar na tentativa de formar uma imagem pública que não é real.
Mas, o triste é que a maciça , maioria das pessoas que
vivem assim não admite para si mesmo que precisa mudar.
O segredo da felicidade real está no contentamente! Não se
trata de abrir mão de tudo, nem de desejar possuir tudo, mas apenas de se
contentar com as alegrias de cada etapa da vida. Assim, posso utilizar uma
frase que está na moda: sua felicidade será sustentável.
“ Felicidade são os
humildes, pois eles receberão a terra por herança” ( Mt 5:5)
Pr. Josemar Bandeira
FONTE: BÚSSOLA
CIDADE VIVA.ORG