O conformismo
que mata todos os dias
Acho que os anos irão passar, novas décadas
nascerão e meu discurso talvez mude bem pouco pois o mesmo problema que
enfrentamos hoje, já enfrentamos em décadas e séculos passados. E ate penso,
muitas vezes nos séculos passados as pessoas tinham mais coragem e compreendia
mais tudo que as cercavam. Digo compreender, mas essa compreensão não está
relacionada ao silêncio ou a aceitação de “mas a vida é assim”.
Com os anos sinto que minha vida está em
constante inquietação e todas as sugestões que me são dadas tem sempre o cheiro
de conformismo.O tal “aceite a vida pois ela é assim”, ou “o que eu posso
fazer?”, “se conforme”. Todo esse
discurso arcaico e ate mofado me dá náuseas e me faz perguntar: Eu
realmente nasci para viver e terminar os meus dias se banhando numa banheira
chamada conformismo? Não quero me deleitar nessa aceitação vã e barata.
E o pior cada dia que passa as pessoas
aumentam seus discursos como verdadeiras esponjas encharcadas de tudo que não
serve, não acrescenta, apenas diminui. Discurso esses de aprisionamento, arrogância
e egocentrismo puro. A minha inquietação é por não mais aceitar os ‘porquês’
vagos, as respostas curtas, a falta de liberdade e o pior – a falta de
oportunidade de poder pensar. Porque pensar, está cada dia mais raro e ate mais caro, pois ainda pagamos um preso duro e doloroso por querer tentar pensar - talvez seja por isso que as pessoas
tem tanto medo de pensar e o pior é que muitas delas tem medo do que elas vão descobrir ao pensar.
Eu não tenho medo da descoberta, eu tenho
medo é de passar a vida toda sem fazer descoberta ou ate mesmo sem trazer a
tona tais descobertas. Mudar ainda é preciso, relutar ainda se faz necessário,
mas é bem mais simples ficar do lado dos poderosos, do que vai a favor das tais
ditas normas sociais. E ainda há quem pensa que normas sociais é a nossa
constituição. Isso se chama leis, normas sociais são as nossas imposições sobre
as outras pessoas (normas sociais ainda é o mal que causamos achando que
estamos fazendo e dizendo o bem. Toda fez que impomos algo estamos construindo
mais normas, mais estereótipos e mais um mundo triste e amargo de se ver, de se
ter e ate de se viver).
E ainda impomos, impomos o nosso pensar, a
nossa opinião, os nossos gostos, os nossos amores e ate a nossa fé. Eu não
quero que as pessoas tenham fé em mim, também não quero impor nada sobre essas
pessoas ou para essas pessoas. Não sou santa e acredito que ate os santos tinham seus momentos de devaneios e desilusões,
ainda priorizo a liberdade mas não confunda meu discurso de liberdade com a tal
suposta libertinagem. Eu realmente quero que as pessoas sejam livres ao menos para
pensar. Por favor, não vamos ter tanto medo de pensar.
A ditadura acabou mas a nossa ditadura
infelizmente ainda continua instaurada muito em nós. Se descobrir é bom, é
positivo pensar diferente e fugir das tais normas sociais. Se pensar é um pecado,
eu prefiro está no pecado do que está na santidade sem tais pensamentos.
É muito triste ver tanta imposição e ate o
riso é imposto. Quem diz o que é agradável para mim sou eu. Eu devo criar minha
própria identidade e mudá-la quantas vezes eu quiser. Se não somos donos de nós
mesmo, não podemos tentar mandar nos outros.
Não vamos morrer aos poucos, não vamos
deixar que o conformismo inunda as nossas vidas. A nossa fé não pode ser
conformista porque Deus não é um conjunto de apenas 10 mandamentos, Deus é
muito mais do que a essência de uma filosofia suposta. Deus é bem mais do que
esse beatismo arcaico, Deus vai muito mais além do que a nossa mente consegue
captar. Deus ainda é liberdade. E o pior - pouco tenho escutado sobre a
liberdade da fé. Quero ter fé mas quero que essa fé seja refeita, reconstruída,
redescoberta e principalmente livre. Afinal cadê o livre-arbítrio?
O mundo mudou, a fé se reformulou mas o
nosso egoísmo ainda continua o mesmo. Acho que os novos anos não combinam mais
com esse vestido mofado chamado egoísmo.
O mundo transcedeu-se e a fé foi
universalizada, ou as pessoas provam o seu amor por Deus amando a todos ou elas
vão ter que inventar um novo formato de fé, pois antes da fé ainda vem o amor
ao próximo, amor esse que infelizmente está muito ausente em nossa sociedade.
Vivemos no mundo de muita fé e pouco amor. É
tantas pessoas com fé que elas são capazes de parar o planeta mas é tantas
pessoas sem amor que talvez seja por isso que a fome ainda existe e mata todos
os dias.
Não queremos saber o que é certo ou errado,
o que torna certo e o errado ou quem é certo e errado. Essa busca pelo certo e
pelos culpados do que é certo e ate do errado, nos tornou muito podados e
presos a um verdadeiro abstrato repleto de nada. Passamos a vida fazendo lista
do que podemos fazer, pensar e ate ser. E o pior que a vida passa e ainda não
descobrimos quem somos, o que realmente pensamos e o que deveríamos fazer.
Não vamos desperdiçar mais anos de nossas
vidas se prendendo em nós mesmo, se prendendo em ditaduras próprias. O mundo
está aí, temos templos e igrejas mais que suficientes para a população de todo
esse planeta mas e o amor? Será que temos amor suficiente para esse planeta?
Que o conformismo não mate a sua fé e o seu
amor, viver não se resumi em sentar numa cadeira e fazer leituras do evangelho.
Viver ainda é colocar em prática esse tal evangelho!
Jéssica Cavalcante